Voar Contigo ( Parte 1 )
19.03.20

Estava no aeroporto.
O avião iria com destino a Paris dentro de uma hora.
Já tinha feito o check-in e agora só lhe faltava esperar pelo Hugo que tinha os documentos essenciais para formalizar
o contrato com o grupo Francês.
- Fiz-te esperar muito? – aquela voz, não era do Hugo...(!)
Ergueu a cabeça e olhou para a sua esquerda.
Um aperto tomou conta do seu coração, sentiu-se perto de ter um ataque, aquilo não podia estar a acontecer!
- Quem diria? Sr. Ferreira?! Que faz aqui? – perguntou com o tom mais sarcástico possível.
- Sr. Ferreira? Formal demais para meu gosto, mas se preferes tratar-me assim...
- Que está aqui a fazer?
- Eu vou para Paris! – o seu sorriso assustou-a.
Ficou claro, para ela, que ele já tinha alguma coisa em mente e que de certeza não a ia deixar escapar,
contudo, estava no seu feitio tentar fugir à esperteza dele.
- Como... vai para Paris? Fazer o que?
- Não achas que estás a fazer perguntas a mais? Eu vou em negócios!
- Ah! Quando é que vais?
- Tu?! Trataste-me por tu...viste ? – ele sorriu, parecia estar a divertir-se.
- Quando é que vai? – disse, franzindo as sobrancelhas.
- Eu vou daqui...exactamente a... 45 minutos. E tu?
Olha...toma lá os documentos que precisas para assinar o tal contrato.
- Mas...o que...obrigado... o que aconteceu ao Hugo?
- O Hugo ? Ah sim, aquele que tem sempre vontade de beber café á mesma hora que tu ?
Pois...ele realmente disse que gostaria de te acompanhar, mas o teu patrão achou melhor ser eu a tua companhia,
durante a semana por terras alheias, sabes como é, putos...depois é o que dá...
- A minha companhia ?!...não obrigado !...sei tomar conta de mim!
- Sim? Ele disse que, como eu conheço o país, é melhor ser eu a acompanhar-te...para não te perderes,
e eu tenho muitos contactos entre os accionistas com quem vais falar.
Oh Hanna! Não fiques assim, só te vou ajudar! – e não conseguiu reter uma bem audível gargalhada.
- Não me parece! Acho que vais é atrapalhar!
Levantou-se e viu-o a olha-la de baixo para cima,
- O que foi agora? Nunca me viste?
- Já, mas parecias menos atraente das outras vezes! Não que não o sejas, atenção, sempre...
- Isto não me está a acontecer! Tu és mesmo armado em bom! Eu não acredito nisto !!
Estava com uma saia preta justa, sensualmente comprida, sendo a parte de cima num branco marfim, igualmente de corte chegado ao corpo,
salientando a bem cuidada e apelativa silueta, sem pôr em causa o caris profissional que queria transmitir.
Se calhar, o conjunto, onde não podiam faltar os saltos altos a condizer, podia ser considerado quente demais para aquela viagem
e mais apropriado para outras ocasiões, mas há muito que não usava aquela saia e não era todos os dias que poderia ir a Paris,
onde a primavera, habitualmente, era fresca.
- Ainda estás a olhar? – perguntou, ao reparar que ele continuava no mesmo sítio enquanto ela já se preparava
para virar a esquina e subir para o andar seguinte.
Ele começou a andar na sua direcção, ia num ritmo calmo, com uma mão no bolso das calças, parecendo bem confortável
apesar do fato azul-escuro que vestia.
Viu-o levar a mão à gravata, tirá-la e colocá-la no bolso do casaco.
Desapertou os primeiros botões da camisa e sorriu-lhe.
A ela, pareceu-lhe que ele se estava a pôr à vontade!
Mas por que raio estava ele a comportar-se daquela maneira ?!
Seria ele sempre assim ?
Olhou em redor para se certificar daquele pensamento e logo se arrependeu, estavam todos a olhar, melhor - todas pensou – todas !
Finalmente embarcaram e ele pediu-lhe licença para se sentar à janela.
Bem ao meu lado – pensou - teve logo de arranjar um lugar ao pé, e eu a quere-lo bem longe,
afinal não tive muita sorte, ou será...?
Não conseguia entender, sentia algo muito forte quando o via, quando ouvia a sua voz clara e aveludada ao mesmo tempo,
mas depois... quando ele lhe falava, tinha vontade de o matar, de o estrangular até ele a deixar em paz!
Olhou-o meio de lado, pensando no que teria sido...era...que fazia com que ela se sentisse....apaixonada... por aquele homem...
Apaixonada... eu estou sem dúvida apaixonada – a ideia fez-lhe fechar os olhos com toda a força.
Considerava-o demasiado misterioso, um completo desconhecido em tanto, não era que não o queria conhecer, até queria,
mas quando surgia uma oportunidade, simplesmente estragava tudo!
Como que por pressentimento ele olhou para ela, aqueles olhos escuros a observar,
a cintilar de uma maneira que ela já tinha visto antes.
Parecia tentar dizer algo com aquele simples e maravilhoso olhar e a vontade de querer aproximar-se dele
e pedir desculpa, tomou conta dela.
Devia-lhe uma data de desculpas, primeiro por ter fugido em Londres, depois por o ter despachado quando a
convidou para jantar pelo telefone, aliás, a ultima vez que tinham falado...
Que coisa, parece que não estamos destinados, se calhar é isso – pensou, e um calafrio percorreu-lhe o corpo.
- Que pensas fazer quando aterrarmos? – perguntou sem desviar a sua atenção das nuvens que via através da janela.
- Não sei... nós...o que achas que devemos fazer? – sentiu-se contente por ele meter conversa e sobretudo pelo sorriso aberto
que lhe estava a lançar. - Que foi?
- É a primeira vez que te referes a tu e eu, como nós – disse-lhe e voltou a olhar pela janela.
- Que estás a ver? - perguntou-lhe, grata por ele continuar a olhar o céu, não lhe vendo as faces bem coradas.
- Nada! Mas eu gosto do ar, em pequeno queria ir para a força aérea...
- Ah! E imagino que também quiseste ser astronauta então?- riu-se.
- Quase fui!
- E porque desististe?
- De ser astronauta? - sorriu - És terrível. Eu...acho que não tive muita escolha na verdade...e tu?
Ele olhou-a nos olhos e esperou a resposta que parecia não querer surgir.
- Foi mais ou menos assim comigo também.
- Bom, pelo menos já temos algo em comum.
Então, achas que os françus vaidosos estão à nossa espera hoje? – perguntou-lhe, voltando-se para a janela.
Lá estava ele a enervá-la!
A mudar de assunto sem mais nem menos!,
Apeteceu-lhe tanto mudar de lugar com ele, só para ele a olhar e deixar a janela em paz!
Ia mas é tirar o dia da chegada para dar uma volta pelo rio Sena!
- Vamos ficar num hotel mesmo em frente ao Sena, sabias?
Meu Deus! pensou, ele lê pensamentos?
- Deve ser bem confortável... – e começou a morder o lábio para não mandá-lo para aquele sítio !
- Bem, quase lá... isto é muito bonito, acho que vai gostar!
- É...eu... sei que vou gostar...
- Temos de combinar uma coisa desde já, eu detesto ser tratado pelo meu apelido, ou me tratas por Alexandre,
ou eu começo a chamar-te Dª Moura...ou espiga!
- Está bem, está bem... Alex...ou entrecostozinho !
- Ei! Não abuses! Ele riu-se e aproximou-se do seu ouvido.
- Quem sabe, se calhar até vais acostumar-te ao entrecostozinho, espiga... – disse ele sussurrando.
Ela sentiu algo indescritível...uma sensação única.
Puxa ! - percebeu que a porcaria da hospedeira não deixava de olhar para ele, até mesmo depois de saírem do avião,
não desgrudou os olhos dele nem por um minuto.
Por fim quando passaram por ela, à saída do avião, teve mesmo a lata de lhe piscar o olho.
Contudo, não contava com que, ao passar por ele depois no aeroporto, recebesse um beijo na face, deixando-a perfeitamente estupefacta.
- És assim com todas? – perguntou, continuando a andar e sem se dar ao trabalho de olhar para ele porque estava bem irritada.
- Ciúmes?
- Vai sonhando! - mas teve que se conter, para não demonstrá-lo.
- Pelos vistos devo estar a sonhar... ela piscou-me o olho, eu apenas decidi deixar-lhe uma recordação minha,
qual é o mal de um beijinho tão inocente, pois foi na cara e não me pareceu que ela ficasse nada chateada.
- Querias que ela ficasse, não?! És mesmo...
- O que? Vá ! Diz ! Desabafa comigo! Eu ando à espera disso desde que nós reencontramos pela primeira vez.
- Que queres dizer com isso?
- Foi por minha causa que não ficaste em Londres?
- Não tens nada com isso!
- Se foi por minha causa, tenho...
- Então não foi por tua causa! - interrompeu, bruscamente.
- Vou partir do princípio que estás a dizer o contrário...
- Porque?!
- Porque não é isso que a tua voz nervosa me diz. Hanna, olha para mim...
- Vamos para onde mesmo? - Olhava em sua volta, evitando o olhar inquisidor dele.
- Eu sabia! Foi por minha causa! Ainda me há-des dizer o que é que eu fiz...
Se queres mesmo saber, vamos para o Royal Cardinal, aquel ao pé do Notre Dame!
Espera aqui...eu já volto!
Afastou-se com alguma rapidez e em segundos já não o via nem de longe.
Andou um pouco até ao exterior do aeroporto, sentou-se no primeiro banco que viu e ficou à espreita, para ver se o via.
Meia hora e nada dele, começou a ficar chateada e por outro lado preocupada - será que tinha acontecido alguma coisa?
Pronto, podemos ir! – olhou para trás e lá estava o Alex.
- Que foste fazer, quase morri aqui à seca!
- Se tinhas sede, podias ter ido beber um copo de água...não me digas que tiveste saudades minhas ??
Temos um táxi á nossa espera ali à frente...
Não pode deixar de rir com ele.
- Sim...por acaso...até dá jeito ter-te por perto...às vezes...Vamos? Daqui a nada é noite!
Ao sairem do aeroporto, nunhum deles teve a percepção que outras pessoas tiveram, ao passarem por, ou em redor deles.
Então não é que...pareciam...algo mais...do que simples colegas de trabalho...(?)