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Fox-Time

If only Love stood a chance.

Fox-Time

If only Love stood a chance.

Palavras sem Fim

24.01.20

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Eram três e meia da manhã.

O bar estava quase vazio.
Quase.

Havia uns poucos clientes espalhados pelo espaço, todos sendo servidos por empregados cansados e exaustos
que mal podiam esperar para vê-los pelas costas.

Diferentemente dos demais, ela estava sozinha.
Como sempre.
Como das outras vezes.

Casco negro cumprido misturando-se com ondas de cabelo loiro,
calça de ganga justa e
botas que mais pareciam destinadas ao NBA.
Lá estava ela, ainda mais uma vez, sentada e acompanhada apenas pelos seus cigarros, seus pensamentos,
sua bebida e seus papéis, ou melhor, guardanapos.

Escrevia sem parar desde que chegou.
Escrevia e escrevia e escrevia.
Palavras desconexas, palavras coloridas,
palavras doces, palavras confessionais.

Está a escrever uma carta para alguém.
Pensou ele.
Uma pessoa querida, bastante querida.

Ele imaginava saber que naquele texto estava toda a sua declaração de amor por aquela pessoa.
Toda.

Não haveria sequer uma palavra a mais do que o necessário.
Tudo o que ela sempre quisera dizer estaria lá, naqueles pequenos guardanapos de papel vagabundo, amassados.
Entre um e outro cigarro e pequenos goles de martini bianco, ela dissecava toda a sua vida,
todo o seu amor, toda a sua dor.


Sim, sabe que está a fazer uso da bebida, reflectiu,
aproveita para afastar o medo e escreve tudo aquilo que esconde lá dentro.
Aproveita o senso turvo para se abrir.
Como nunca.
Como sempre quis.


No final de um provável décimo guardanapo, ele apercebe-se que ela decidiu ir-se embora.
Com os olhos vermelhos e cansados e cheios de lágrimas, pede a conta, paga,
levanta-se e dirige-se pesadamente, à saída.


“Desculpe...”

Ela vira-se e pergunta - “Eu ?”


“Sim...a Srª esqueceu isto...” - diz ele, apontando para os guardanapos.

“Pode deixar aí mesmo” - responde, disfarçando as lágrimas.

“Umm...não entendo. Você passou a madrugada toda a escrever isto e agora vai-se embora, deixando-os aqui ?
Vão deitá-los no lixo...
como os outros...que já ficaram por aqui...não que eu tivesse visto...quer dizer...
lido o que está neles...isto é...bem...quero dizer-lhe...parece-me muito triste....isto não está certo!”

Ela olha-o com um sorriso terno e diz - “Então não os deite fora.
Isso é mais ou menos como que uma declaração de amor. Uma declaração sem fim.
Dê-os a alguém que você ame.”

Ele, desconcertado, confuso, pergunta - “Mas, porque não os entrega a quem estão destinados?”

Ela apenas sorri, a mágoa flamejando naqueles olhos brilhantes e escuros.
“Entregue-os a alguém que você ame. Mas tenha a certeza que também o amam.
Boa sorte...desejo-lhe sorte...”

E saiu.

Ficou parado, guardanapos na mão, palavras prisioneiras a inchar-lhe a garganta.
Merda !
Grande merda ! - berrava-lhe o seu ego estilhaçado.

Mais uma vez, não foste capaz !

“Olha, olha ! Então ? Está na hora ! Vê lá se te despachas com as mesas...
Que fazes aí especado com esses papeis nas mãos ?”

“Nada !!!”

Mais uma vez, iria guarda-los e lê-los mais tarde,
pela madrugada adentro,
o aroma dela a invadir-lhe os sentidos, o corpo, a alma...

Da próxima vez !- pensou, da próxima vez...

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