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Ao olhar pela janela da cozinha, viu o carro estacionar e sentiu o coração bater na garganta.
Não era possível ter esquecido aquele carro.
Quando foi ao encontro dela e abriu a porta e os seus braços o rodearam, as mãos traziam ainda o detergente da louça.
Ela não se importou, limitou-se a sorrir, com aquele sorriso tão dela.
Estava linda.
Estava mudada.
Estava diferente.
Reparou que agora haviam mais rugas à volta dos seus olhos e aos cantos da boca.
"Cá estou amor..." - disse - " Acredita...voltei para sempre."
Sentiu-se inteiro, outra vez.
Algo lá dentro, suavizou-se.
"Quer dizer que tu estás..." - hesitou antes de continuar - "tu estás sozinha?"
"Certo..." - riu-se outra vez.
Agarrou-lhe o braço, precisava de tocar nela, precisava de ter a certeza de que estava mesmo ali, à sua frente.
E foi assim, agora que recordava, nem pediu para ficar noutro quarto.
Nada.
"Posso ficar aqui até encontrar um sítio ? Prometo que depois vou-me embora..."
Mas ele sabia que ela ia ficar, que não procuraria mais nenhum lugar.
Conseguia ver como estava exausta da procura, da mudança, do recomeço e de se habituar a lugares novos.
Ela ia ficar. Sim.
Queria, mas não podia perguntar o que seria feito do duplex à beira-mar, do bom automóvel, daquele tipo alto
de cabelo e barba bem aparados, o tal que transbordava de moderniçes e novidades.
Ficou calado.
Os dias seguintes foram estranhos.
Vinham-lhe à cabeça tantas perguntas, saudades, memórias.
Recordou o dia em que partiu, da conversa na noite anteior depois de terem feito amor.
Lembrou-se da razão que lhe dera, das palavras frias e crueis, da explicação incoerente.
"Estou farta de viver assim! Já não faz sentido. Não tenho o amor que tinha por ti!
Já algum tempo que te queria dizer ! Quero viver !"
Por vezes sentava-se a escrever.
Tentava organizar os pensamentos – ou era apenas para não enlouquecer?
Queria tanto saber como fazer, como alcançá-la, como apagar o tempo decorrido e perdido, o abandono, a destruição...
As semanas seguintes tornaram-se curtas e cheias de conversas.
Ela falava como se nunca tivesse ido.
Contava histórias do que vivera, de quem conhecera, de experiencias saboreadas.
Ele não queria imaginar, não conseguia perceber.
"Porque demoraste tanto em voltar ?" - perguntou-lhe.
Ela desviou o olhar e esboçou um fino sorriso.
"Para aqui ? Para esta vidinha triste ? - ria-se.
Pois...ainda não percebeste?
Não teria descoberto o mundo...pois não ?
Sabes como é...há sempre um preço a pagar."
Depois, uma manhã acordou cedo, com o sussurrar das folhas secas e luz ténue.
Saiu e foi caminhar.
Não havia ninguém.
O seu mundo dormia.
O seu mundo queria adormir, queria manter os olhos fechados.
A terra bebia o orvalho da noite e o vento soprava misturas de aromas agri-doces, ora quentes, ora frias.
E durante uma hora, achava que fora uma hora, recordou, profundamente, sentiu, vomitou e odiou...odiou-se...
Com o passar dos dias, chegou-lhe a ideia de que ela pretendia reparar o passado.
Obter perdão.
Mas, havia algo por explicar, algo que a mantinha afastada dele, sem que ela desse conta.
Algo quase sinistro.
Algo de...predadora...
A forma como o cabelo lhe caía pelos ombros, as alças da babydoll rendidas ao olhar dele.
Por entre as pernas longas entrelaçadas no sofá, a nudez intima dela, atiçando-o sem pudor.
"Olha, sei que não devia ter partido daquela maneira, sei que não entendes...que nunca vais compreender as minhas razões ...
peço-te desculpa...só que..."
"Encontraste o que procuravas ?" - interrompeu-a.
"Fez-te feliz ?" - perguntou-lhe.
"Sabes...cheguei a pensar que sim...
Ele era fantástico...mas com o passar do tempo...tentou mudar-me...apontava defeitos...montes...
Comecei a andar perdida. Senti-me sozinha.
Tentei perceber o porquê da falta de carrinho...do deixa andar,
do "tu é que sabes"...de não sentir harmonia...como tinha sentido...contigo...tu ponhas-me num pedestal.
Depois..um dia...caiu-me a ficha!
Vi como te tratei...estupidamente mal...que destruí o teu mundo...que...que te enganei...que tu merecias tanto melhor...
Talvez este...seja o meu lugar.
Só tu consegues entender-me...!"
O "talvez", soou a soco abafado.
"Então...e agora sentes-te melhor...aqui?"
"Sabes...a primeira noite...depois de ter voltado?
Quando adormeceste fiquei a olhar para ti ... para tudo ... e parecia que nada tinha mudado,
era como se eu nunca tivesse....estado longe..."
"Mas estiveste...muito longe. Muito tempo. Senti muito a tua falta...acho que ainda sinto..."
"Não sejas parvo! Ajuda-me. Faz com que tudo volte a ser como dantes!"
"Não sei o que dizer...não sei se posso ajudar-te. Não era com ele que tudo ia ser como querias?"
"Foi diferente...
Quando eu disse que o ia deixar mandou-se ao ar. Disse que me matava. Até disse que se matava!
Era um fraco. Não como tu. Tu aguentaste tudo.E bem pior.
Até porque em comparação, tive pouco tempo com ele...
E sabes, depois de algumas discussões e algumas encenações...um dia...já faz mais de meio ano...sumiu!
Desapareceu!
Nem se despediu de ninguém.
Aquele não sabia o que é amar...não como tu...
Entendo isso agora...
É só pena não seres mais alto e teres uma barbicha.!" - e soltou uma gargalhada inconsequente.
Sim, conseguira Imaginar que naquela noite ela tivesse acordado aflita.
Que o mundo dela tivesse de algum modo desabado.
Talvez, tenha rezado pela primeira vez.
Até era possível que tenha chamado por ele ... finalmente...
Sinceramente – esperava que tenha sofrido.
Não conseguia perdoar...
As razões dela, o porquê de ter voltado...
Estava tudo errado...
Tanto dela, não estava ali, com ele...
Não, não conseguia imaginar o que seria voltar a viver na dor da espera,
Que tudo voltasse a ser como fora, antes daquele tipo a ter desviado,
antes dela ter sentido vergonha dele, antes dela ter envergonhado o amor deles.
Tinha de acabar com aquilo. Para sempre.
Não havia forma de não ser assim.
Ela, aquela por quem se tinha apaixonado, permaneceria intacta, dentro dele.
Uma menina-mulher única, a quem se tinha entregue.
Alguém que, claramente, já não era...Ela.
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Agora, naquela manhã inospita, contava a história, aos bocados ao agente fardado, de maõs nas ancas, à sua frente.
“Isso é tudo muito interessante caro senhor...mas diga-me...aqui na fotografia...que tiramos no local,
quem é esta pessoa ... quer dizer...o que resta dele...aqui ao lado da sujeita...da sua ex-companheira ...?”
"O senhor inspector vai-me desculpar...mas sabe...percebi. Ela ficava melhor acompanhada ..."
“ ...sim...mas...isso não explica...”
"Entendo, É pena...deve ter sido o vento aqui nas dunas...sempre imprevisível. Não encontraram mais nada?
Deixei um papel escrito..."
" Um quê? Escreveu algo? Pôs ao pé dos...corpos...é isso?"
"Sim. Fez-me sentido na altura. Escrevi...espere...só um momento...tenho uma foto aqui no telmóvel." e quando
encontrou a imagem correspondente, leu -
"Nunca pensei que voltasses.
Tive pouca esperança.
Mas voltaste.
Só que, cedo mataste a esperança que tinhas mudado, que era eu quem tu querias...verdadeiramente.
Por isso...vai, vai para sempre com ele!
O teu sonho de homem,
por quem me abandonaste,
por quem tudo deixaste,
por quem eu virei lixo!
Há muito,
que ele te espera!"