Horas Extra
19.02.20

Que fazia ela ali, àquela hora ?
A noite já ia longa.
Ele próprio precisava, por vezes, de umas horas extra para pôr tudo em dia, mas,
nunca a encontrara antes, ali, muito menos assim...
Resolve não entrar.
Abre cuidadosamente a porta que dava acesso à sala das cadeiras em pele preta,
apenas o suficiente para puder observá-la.
Sorri.
Quem diria? Que bela imagem...
Quantas vezes, enquanto esperava numa daquelas cadeiras, ficava a admirá-la, de longe,
passando lhe tudo pela cabeça menos os assuntos de trabalho que o levavam ali.
De repente, ocorre-lhe, que de facto era mesmo muito estranho o que estava a presenciar.
Questionava se por ventua ela estaria com mais alguém, possivelmente com outro colega.
Encosta-se, com jeitinho, à ombreira da porta do gabinete dele.
Percebe que ela tinha optado por ouvir música enquanto lia uma revista, o corpo semi-deitado no sofá,
apenas em lingerie, as pernas cruzadas, roçando uma na outra de forma aparentemente inconsciente,
os pés brincando um com o outro.
Que absurdo! - pensa.
Sabia que o escritório dela tinha uma casa de banho completa privativa,
daí que, provavelmente, o outro estaria lá dentro...
Mas ela não lhe dá tempo para concluir qualquer raciocínio, levanta-se,
deita a revista para cima da secretária e desaparece de cena,
isto é, de onde ele a consegue ver.
Regressa com uma peça de fruta e senta-se, olhando para a suculenta maçã que tinha na mão.
Cheira-a antes de trincar.
Parece não estar com vontade de comer.
Ele apercebe-se do olhar, do sorriso meio malicioso, do suspiro libertado.
O que lhe apetece realmente é saborear - pensa.
Algo mexe dentro dele.
O verde da fruta e o negro daqueles olhos criam vertentes coloridas que lhe aguçam o apetite.
Era como que estar dentro de um filme sem contudo fazer parte dele.
Sente-a a acariciar a maça, a textura lisa e suave,
passando-a delicadamente pelo rosto,
mordendo os lábios ao de leve...
Seguidamente, quase dá um salto quando ela trinca a maçã carnuda,
com paixão desmedida,
deixando escapar um pequeno gemido abafado,
a seiva a escorrer pela mão,
o sabor ácido a arrepiar-lhe a pele,
os mamilos agora claramente estampados no lingerie negro.
Não consegue desviar o olhar.
Vê-a fechar os olhos e com a ponta da língua lamber o sumo que escorre,
para depois, lentamente, ao saborear o suco...eles comecarem a abrir...
e como fechos de uma poderosa luz....fixarem-se nele !
Subitamente levanta-se, coloca a maçã com toda a cerimónia na secretária
e com um olhar penetrante dirige-se a ele,
agarra-o pela cintura,
encosta os lábios à orelha esquerda,
respira profundamente,
sussurra-lhe ao ouvido - “Apeteces-me...vem!...”
E num movimento único, pleno de sensualidade temperada,
vira-se, descalça os sapatos de salto alto,
e começo aquele andar de mulher sensual, sexy, sabida,
mulher que agarra o que quer, quando quer, onde quer,
nadegas insinuantes cativando a atenção dele,
conduzindo-o até ao espaço dela.
Havia, com certeza, horas extra...a fazer...