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Fox-Time

If only Love stood a chance.

Fox-Time

If only Love stood a chance.

Farol

10.02.20

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Olhando profundamente o mar, inspirou longamente até não lhe caber mais ar nos pulmões.
Reteve-o durante longos segundos, numa tentativa frágil de guardar dentro de si as memórias que nele se avivavam.

Era triste aquela imagem da areia moribunda na calçada.
Felizmente aparecera a nortada, fria e protectora, e sopro após sopro, empurrava afectuosamente cada grão para a praia,
para junto dos outros grãos,
num gesto quase maternal.
Contrariado, foi libertando o ar lentamente.
Ajustou o casaco de cabedal sobre os ombros, virou as costas ao mar e dirigiu-se para o automóvel estacionado junto à calçada.

O carro rodava paralelo à marginal, descontraído, como que vagueando apenas pelo simples prazer de passear.
Mas era precisamente o contrário.
Inconscientemente aliviou a pressão sobre o acelerador.
Ao longe vislumbrava já a silhueta do farol.
Uma dúvida pairava sobre a sua cabeça, uma incerteza que, nunca como agora, desejou manter inalterada,
a incógnita de saber se ela estaria lá.

A aproximação fazia crescer nele o medo, o receio de uma viagem em vão.
Na verdade nunca seria em vão, pois levaria dali uma resposta, talvez não fosse a esperada, mas não deixaria de ser uma resposta.
A distância ia-se dissipando e a silhueta do farol crescia no cimo da falésia.

Chegara finalmente e tal como temera, não estava lá ninguém.
Olhou para o relógio, o qual, apesar da sofisticação não possuía a resposta à pergunta que lhe fustigava a mente
como uma tempestade marítima.

Estaria ela atrasada, ou simplesmente...?

Saiu do carro e dirigiu-se ao pequeno miradouro.
Não era fácil estar ali sozinho.
O farol tinha um significado muito especial.
Para ele, este mantinha uma relação do tipo amor – ódio com o mar e a luta desigual que travava todas as noites com a cegueira
enquanto procurava levar luz aos olhos cansados de marinheiros, trazia ao lugar uma harmonia e beleza capaz de despontar nele
um bem-estar, uma sensação de protecção e liberdade ao mesmo tempo,
que nunca conseguira nem tentara explicar.

Mais um dia que chegava ao fim.
Ao longe, bem ao longe, o sol, naquela tarde de um tamanho descomunal partia numa viagem com regresso anunciando.
Desviou o olhar em direcção à estrada que serpenteava junto ao mar e pareceu-lhe ver um carro que se aproximava.
Sentiu o coração bater mais depressa e
uma excitação infantil apoderou-se dele.
Casou o olhar com a estrada e segundos depois teve a certeza.
As mãos começaram a suar.
Atabalhoadamente tentava construir um discurso coerente.
Voltou apressadamente para junto do carro.

Ela estacionou o carro junto ao dele.
Olho-o demoradamente através da janela aberta com um sorriso ao canto da boca, olhos semi-cerrados,
cabelos longos a esvoaçar ao sabor do vento...e as frases pensadas, afundaram-se bruscamente naquele mar agitado de sentimentos,

rendidas à frase muda que ela tinha para ele.
Depois, com aquela elegância provocante que lhe caracterizava, deslizou para fora do automóvel e atirou os braços em volta dele,
aninhando-se com um abraço só comparável em intensidade ao abraço da lapa à rocha.


Pensei que não viesses – disse ele após alguns momentos.
E eu pensei que tu não vinhas – disse-lhe ela.
Como poderia não vir, não pensei noutra coisa desde que falámos.
Eu também. Admito...
Não! – disseram os dois em uníssono, libertando uma leve risada.
Vamos entrar? – perguntou ele.
Não é possível… tu… conseguiste? - disse ela num misto de admiração e espanto.
Sim consegui...a chave...do farol! – exclamou ele, enquanto metia a mão no bolso.
Vamos, finalmente, poder partilhar o farol...a sós...

Ela sorriu e sem dizer mais, libertou-se dos braços dele e puxando-o, guiou-o até à porta do farol.
Entraram em silêncio de mão dada, ela à frente.
Seguiram directamente em direcção às escadas e subiram os inúmeros degraus que davam acesso ao varandim que albergava a lâmpada.
Aí, olhando o horizonte profundo, entregaram-se um ao outro num abraço sereno.
Voltaram para dentro de mão dada e dirigiram-se ao pequeno quarto nas traseiras do andar,
onde uma pequena cama rústica fazer companhia a uma mesinha de cabeça, sem parceiro.

Espera um bocadinho, volto já-já. Vou só buscar um edredom ao carro, tá? - e, com um leve beijo na bochecha, saiu apressadamente.

Acendeu a vela branca, pesada e quadrada, fazendo com que a luz quente inundasse o lugar ermo.
Afastando-lhe os longos cabelos, beijou-a suavemente no pescoço enquanto levantava ligeiramente a camisola dela,
deixando os dedos deambular à procura do calor que emanava dela, tacteando ternamente a pele que se arrepiava ao toque.

Sentia que era um daqueles raros momentos de eterna comunhão, um instante que iria ficar gravado neles para sempre,
mesmo sabendo que aquela alegria se iria desvanecer como a neblina matinal ao encontrar a alvorada de um novo dia.

Afastou-a ligeiramente de si e mergulhando sem medo no seu olhar, sentiu o calor de um mar tropical.
Aproximando-se ligeiramente pousou nos seus lábios um beijo,
que ela retribuiu carinhosamente.

Ambos sabiam que aquele momento teria um fim, mas não iriam pensar nisso.
As suas vidas eram como duas linhas paralelas, que por uma anomalia inexplicável, que nem o mais entendido ousaria tentar explicar,
teriam se intersectado durante a sua viagem pelo universo infinito do tempo.

Agora, restava-lhes esperar pela inevitabilidade de outra anomalia, que voltaria a separar as linhas ou mesmo, emaranhá-las para sempre.
Havia, contudo, algo que nunca mais teria solução, que para sempre permaneceria inalterado, que faria vida dentro daquilo que alguns,
para tudo e para nada, por tudo e por nada, rotulavam de Coração.

Ambos transportavam em si momentos tatuados na alma e por mais que se afastassem, jamais se perderiam de vista,
pelo menos até que a luz que iluminava cada um dos seus caminhos se extinguisse.

Ela beijou-lhe os olhos e com o olhar e puxou-o para si.
Há muito que bastava olharem-se para entenderem o que ambos estavam a pensar, a sentir, a desejar.
Nessas alturas, pensavam - fosse tudo...tão simples!

Estavam decididos, iriam aguardar pelos desígnios supremos do tempo.

Olha, parece que esta noite ninguém vai precisar dele, vê como o mar está calmo.
Que noite perfeita...basta esta lua cheia a qualquer marinheiro...

Não sei...mas sabes o que se diz de noites assim...de lua cheia...?
Sei, sei...mas não há lobisomens marinhos miúda !! – disse-lhe, soltando uma gargalhada.
Pois não...há sereias!!

Riram-se ambos descontraidamente enquanto ele esboçava uma careta de medo como se dela se tratasse.
A noite era deles.
O Farol era deles.
Aquele amor...era somente, deles.

Então, ela atirou com os saltos altos para o canto e sentiu o calor das tábuas ainda aquecidas pelo dia soalheiro.
Deixou cair a saia justa para revelar as pernas altas e torneadas e a cuequinha preta com um lacinho ao meio.
Fixando o olhos nos dele, deslizou as alças do soutien pelos ombros, fez a peça intima rodar no corpo até poder desprendê-la,
banhando os seios entesados na luz ténue e embriagante que entretanto tomará conta do espaço.
Um compasso mais tarde, colocou-se de perfil e com as pontas dos dedos encaminhou a outra peça de lingerie pelas ancas abaixo,
sacudindo-a depois com um dos pés para onde os sapatos tinham sido descartados.
Ria-se baixinho, aquele riso traquino que o fazia perder a calma da espera e d
eu dois passos até ele,
elevando-se em bicos de pés,
colando os lábios ao ouvido dele.
Sussurrou.- Vem amor...vem amar-me. Quero-te...

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Partira ao amanhecer.
Sabia que tinha de ser assim.
Haviam olhado longamente nos olhos de um e outro.
O amor, dando lugar ao silêncio cúmplice, sabia que não ia ser suficientemente forte,
que as circunstâncias e as razões fustigavam os corações doridos e que era altura de ponderarem
o futuro que se explanava a partir daquela manhã.

Parou ao fim da colina de onde ainda conseguia observar o farol e era como se visse através das suas paredes frias.
Conseguia vê-la, enrolada na manta quente.
Não chorava.
Achava, e odiou este pensamento, que ela sentia uma dor tal, uma perca tal,
que as lágrimas teimavam em não sair, antes, preferiam permanecer escondidas por detrás de um espírito que
se julgava fragilizado e abandonado...mas que sabia o porquê de não haver uma despedida consentida.

Como gostaria de voltar para ao pé dela, abraçá-la de novo, amá-la de novo...
Mas...
O que mudaria?
Não!
Naquela manhã, não vislumbrava outra saída.
Ela tinha feito a escolha dela. Só dela.
Dissera-lhe, uns meses antes, que ele já não fazia parte dos sonhos dela, que algo mudará.
Fizera-lhe ver que queria abraçar o futuro sem ele, viver outra vida, sem ele.
Lembrava-se nitidamente como foi sentir-se que nem uma moeda de um cêntimo, que se deixa cair no chão,
sem qualquer vontade de a querer apanhar depois.
As explicações dela tinham arrasado com os aliceres, até então, de uma robusteza invejável.
Ficará a sentir-se...dispensável...substituível...
Fez a janela do carro baixar e inspirou o ar fresco, pesado e salgado.
Tinha o espírito quebrado.
Mas ele era um lutador!
Tinha de reagir!
Saiu do automóvel.
Abeirou-se da encosta.
Olhou o céu, o mar, o farol.
Gritou!
E tornou a gritar!

Terá gritado...palavras...frases...sentimentos...emoções
...esperanças ??
Talvez...um pouco de tudo...
Teria ela...os ouvido??

Voltou para o automóvel e ligou o som.
O sol prometia aquecer a manhã invernosa.
O vento secaria as lágrimas que eventualmente ele não conseguisse estancar.
Era outro dia.
Outra manhã.
Sem ela.
Acolá, o farol que tinha sido ela, permanecia firme nas suas convicções.
Era mudo à conversa dele, não queria acreditar, tinha outras vontades,
achava que o seu destino estava por traçar, noutro lugar, sem ele.
Ao largar a embraiagem, pneus cuspindo, ferozmente, arreão saltando,
sorriu um sorriso triste e lembrou-se -

Amar não Basta!

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