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Fox-Time

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Calzedonia

08.06.22

calzedonia.jpg

( música de acompanhamento à leitura, do último post, no rodapé )
 
Nessa manhã de começo de fim de semana, envolta em chuviscos ocasionais,
ele deslocou-se até ao centro comercial mais próximo para comprar cola.
Era um emergência, havia um trabalho a realisar.
 
Fazia imenso tempo que não punha lá os pés.

Mal entrou no corredor que dava acesso ao supermercado reparou nas cortinas
brancas que permaneciam desenroladas quase até ao chão, impedindo as três pessoas,
que aguardavam ansiosamente, de aceder à loja de telecomunicações.

Esboçou um leve sorriso.
As recordações de esperas sem conta em frente à tabacaria adjacente chegaram até ele.
Como era fácil lembrar os beijos apressados, as mãos dadas e os olhares cintilantes
que iluminavam sorrisos cúmplices.
Demasiado fácil.

Seria sempre assim?
Haveriam lugares que para sempre ficariam reféns de memórias presas ao passado,
ao romance, ao amor que partilhara com aquele miúda dona de uma beleza quase oriental?
Talvez...
Se calhar as lembranças esporádicas que brotam do nada em circunstâncias
variadas e inesperadas são naturais, consequência de sentimentos que vivem eternamente
dentro daqueles que, verdadeiramente, amaram alguém.
Afinal, não são para sempre guardados em nós, os amores mais preciosos,
as pessoas mais importantes, os momentos mais marcantes?
Por muito bem guardadinhas e arrumadas que estejam - não morrem.

Fazia sentido.
O esquecimento torna-se possível, somente, quando o que passou...passou,
isto é, quando na verdade não houvera amor de verdade.

Pegou na bisnaga de cola ( e já agora ) num produto limpa pára-brisas e
dirigiu-se à caixa de pagamento self-service.

Estaria ele, naquele momento, ao recordar com ternura alguns momentos do passado,
a trair a companheira?

Ponderou.
Não.
Os sentimentos eram outros.
O tempo decorrido tratara disso e a relação actual era repleta de tanta coisa
boa que ele sabia isso.
Sentia-o.

Efectuou o pagamento e encaminhou-se para o carro, passando pela tal loja que continuava
à espera das 10hrs.

Sentou-se.
Fechou os olhos e respirou profundamente.
Via-a com clareza.
Aquela miúda esbelta de sandálias altas escorregadias, em dia de verão azul,
sorriso aberto e cativante, descendo a rua no passeio do lado oposto.
Que bela recordação...

Por ventura não lhe teria dito, as vezes suficientes, o quanto era importante para ele,
o quanto a amava, o quanto temia perdê-la.
Ou teria?

Ligou o rádio.
A música agora era outra. ( e este Cd que-lhe fora oferecido era óptimo )
Sabia que nunca mais poderia correr o risco de uma perda semelhante.
Tinha consciência absoluta que o amor alimentava-se de gestos constantes,
naquilo que tem de ser uma dedicação diária.

Deu à chave e arrancou.
Uma tranquiliadade boa tomou conta dele.
Como era bom estar com alguém que o fazia sentir assim.

Ia surpreendê-la com um programa especial para logo à noite.
Sabia exactamente o quê...!

Mas, a manhã premanecera brincalhona e ao deixar o centro comercial para trás,
ele não tardou em soltar umas valentes gargalhadas.


"Devias ter a idade dela..." - disse em alta voz, olhando o reclame da Calzedonia
na paragem de autocarro, lembrando-se do cartaz daquele ano longínquo.
O dia na lagoa.
O garfo apontador.
O topless malandro.
O fato de banho fulminante.
"E de certeza que ainda aprontas!"

Lembrar era bom.
Contudo, viver o presente - era muito melhor!

Levantou o som.
Ria-se - "Esta música..!"

O fim de semana prometia.

O olhar dele mudara.

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