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Fox-Time

If only...we understood Love...

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If only...we understood Love...

A Morte de um Amor

07.01.20


A noite era de calor suave e o cheiro embriagante de ervas selvagens contaminava a encosta que ele descia em direcção
ao vale que mais adiante terminava dando lugar a escarpas altas, violentamente esculpidas pelo mar, numa vontade incessante
de quem nunca dorme e procura devorar o que encontra pelo caminho.

Deixou-se invadir pelo perfume das videiras cabra-pé, trepadeiras de aspecto frágil com as suas folhas verde intenso
e flores violeta roxo, que cobriam as dunas à sua direita.


Àquela hora, a luz do corpo celestial supremo atribuía a toda a paisagem um encanto divino, próprio do acontecimento
que teria lugar nessa noite.

O ricochete dos raios lunares conferiam ao seu pelo de macho maduro tons malhados de branco neve e ele não pode
deixar de esboçar um sorriso quando pensou como o tempo tinha passado sem ele se aperceber, moldando o seu corpo e alma,
fazendo dele um ser completo e capaz de aguentar as façanhas de uma vida atribulada, exigente e onde a pouca felicidade
raramente alcançada...não perdurava.


Após percorrer o vale, mudou de rumo e começou a dirigir-se ao monte que vislumbrava à sua esquerda.
Caminhava sem pressa, serenamente.
Sabia o que aguardava-o.
Os Deuses assim o queriam...mais uma vez...
Reconhecia que em dias anteriores a vontade de lutar, de fugir, até de desespero tinham dominado o seu ser.
A sua entrega a ela tinha sido tal que perante a quebra do elo que os ligava há mais de uma década,
vira-se mergulhado um turbilhão de emoções confusas, depressivas e de um desalento que o condenavam ao estado de existência pobre,
fraca e miserável.

Daí a decisão que tomará.
Era a mais adequada.

Perante a escolha que ela tomará, nada mais havia a fazer.
Apenas ele permanecia agarrado ao amor que, para ela, morrera.

No entanto, nessa noite, imagens de partilha, afecto e compaixão acompanhavam-o e sentia-se feliz por saber que não nutria qualquer
sentimento de ódio por ela, muito pelo contrário, a chama de um vida de amor prometida e por ele vivida, ardia sem dar sinais de querer
extinguir-se...isto é...por si só...

Há medida que subia a acentuada inclinação, aqui e ali algo escorregadia dado a areia fina e solta,
perguntava a si mesmo se tudo aquilo não seria somente um pesadelo terrível, inimaginável, do qual ainda iria acordar,
verificando que ela estava à sua espera, como sempre, ávida do seu abraço, do seu beijo, plena de sonhos e amor ainda por partilhar com ele.


Fez uma pausa.
Olhou o céu.
As estrelas cintilavam de forma curiosa, quase pareciam pulverizar a imensidão negra de lágrimas cristalinas que se auto consumiam.
Chegou ao cimo do monte e parou.

És sempre tão bela...meu Amor - disse-lhe.

Sabia que não haveria qualquer resposta.
O muro de silêncio erguido era intransponível, o olhar dela era penetrante mas não de paixão como outrora.
Havia um misto de compaixão e dor...no meio de um sentimento que ele desconhecia nela,
algo de novo que não fizera parte dela enquanto fora sua.

Possivelmente, uns dias antes, teria-o assustado...mas não agora.

Sem som, ela levantou-se da enorme achatada pedra de granito onde tinha esperado.
Vestia a lingerie que lhe ofereça, uma peça escolhida a preceito, com o intuito de vê-la trajada da sensualidade que
só ela possuía num corpo traçado a pincel de um Deus artista, obcecado com a perfeição feminina.

Reparou na manta branca que lhe cobria os ombros, deixando no entanto a descoberto uma nova tatuagem no braço direito,
imagem que a escuridão escondia.


E a tatuagem do nosso amor, ainda a tens ?- pergunta-lhe.
Sorriu.

Qual é a parte que não entendes?
Não te expliquei tudo?
Não tenho direito a escolher?

Ficou surpreso por ela falar. 
Claramente tinha algo para lhe dizer, antes de...

Acredita, só vim aqui ter contigo porque tens razão...isto não pode continuar assim.
Tem de acabar.
Primeiro achei o teu pedido estranho, mas...compreendo.
Se calhar achavas que eu não sou capaz...mas...sou...
Fizeste-me mais mal do que bem durante tanto tempo...
Quando quiseres..diz... estou pronta...

Emitiu um longo suspiro.
As palavras dela magoavam-no até aos ossos.
Já não restava razão para agarrar-se à vida.
Olhou-a de frente, bem nos olhos inflamados.

Não é preciso ficar assim.
Está descansada.
Não conheço as forças que te governam, hoje em dia, mas vou lembrar-me de ti...como eras.
Vou guardar no meu coração, que ainda é teu, a imagem da mulher que me deste a conhecer,
que se entregou de corpo e alma, que me amou desmedidamente e que ousou sonhar o mesmo sonho que eu.


A menina que colocava-me à frente dos outros, que queria contar ao mundo o nosso Amor.
A amiga que corria até mim para contar as mágoas, que era o meu porto seguro, o meu alento, e eu, o dela.
A miúda que precisava de mim, que não vivia sem mim, sem o meu amor.
A amante que adorava fazer amor comigo, que ensinou-me a dizer "Meu Amor"
A companheira que prometeu-me amor eterno, que disse não se ver com outro, jamais.
A mulher que queria ter um filho meu.
Essa foi...e para sempre será...que tu foste...para mim!

A futilidade e egoísmo que tomou conta de ti nada me diz e em nada vai alterar na nossa história.

Quando ouves estas palavras, eu sei que tu as sentes...lá bem no fundo do teu coração...
coração para o qual eu abri e trouxe novos horizontes.


Lembro-me de teres dito que os nossos espiritos já se conheciam, há muito, de outras vidas,
que fomos amantes antes deste tempo.

Quem sabe, será numa próxima vida que o nosso Amor se realiza por completo.
Quero que vivas a tua liberdade e encontres o destino que procuras.
Quero que sejas feliz.

E...quando em noites destas te encontrares banhada num luar assim e as estrelas espalhadas pelo universo
fizerem-te recordar um colar de estrelas que te dei, faz tempo, dizia eu que eras a minha Estrela,
lembra-te deste Amor...lembra-te de mim...

E...quando ouvires Caruso...lembra-te de fazeres amor à beira de uma castelo,
sem pensares no amanhã...apenas...por amares...

E...quando te puserem o anel de noiva no dedo...lembra-te daquele...que rejeitaste.

Vem, estou pronto.!
É agora!!!

Via como ela vacilava ao de leve, sabia que o seu coração chorava, mas o destino deles estava traçado.
Então ela virou-se para retirar por detrás da enorme pedra uma espada curta de lâmina fina
ostentando um cabo em madeira trabalhada.

Com ela na mão, avançou até a pequena clareira entre eles, lábios cerrados.

Colocou-se à sua frente, de peito exposto.
Olhava-a fixamente.
Sabia que ela conseguia ler-lhe o olhar.
Vá...força...

Ela, segurava a pequena espada com mãos trémulas e ele via os fiozinhos brilhantes denunciados pela lua,
deixados nas maças do rosto dela.

Aproximou-se dele e encostou a ponta afiada ao seu peito, no lugar do coração.

Vá...faz-o...
Mas, as mãos dela tremiam cada vez mais, o corpo dela ameaçava perder as forças
e as lágrimas viravam pequenas torrentes salgadas.

Olhou-a uma última vez.
Amo-te...

Com isto e sem mais hesitação, projecta-se para a frente e contra a arma, enterrando-a peito adentro,
encontrando resistência apenas nas costelas depois de trespassar o coração.


Estava consumado.
Ficou imóvel ao ver o corpo dele resvalar para o lado, caindo para o chão verde, rapidamente tingido por um vermelho escuro.
Não conseguia ouvir os bichos do mato.
Não conseguia ouvir o bater das ondas.

Nada.

Ouvia sim...o seu próprio coração.
Algo de estranho estava a acontecer.
O corpo dela pedia-lhe algo...ansiava por algo...algo!

Sem saber o porquê, quase como que anestesiada, volta à pedra e lá de trás pega na garrafa e copo
que tinha trazido para ganhar coragem, que escondera dele ao pé da espada
e vem ajoelhar-se ao lado do corpo dele.

Aí, faz o sangue que emana dele e corre pela espada fora, entrar na garrafa vazia.
De seguida enche o copo, coloca a garrafa em cima do corpo dele e toma um gole.

Era...quente...doce...
O que foi que ele disse de olhar o céu?
Levantou a cabeça.
Não havia estrelas.
Apenas a solitária testemunha.
Quando voltou a olhá-lo...o homem já não o era.

O corpo, de uma raposa, jazia ali.

Ergueu os olhos e o copo.
A ti...meu Amor...
Sim! Foste!
Amei-te! Sim!
Não te vou esquecer!
Mas...e silenciou-se...

Dava conta que o seu corpo reagia ao que havia ingerido.
Era uma sensação esquisita.
Mas...não conseguia perceber o que era...
Ia beber tudo, levar dentro de si...o amor dele...por ela...

Olhava-a.
Meu Deus, porque fazes seres assim?
Olha, vês?...Ela ainda é...aquela menina-mulher!
Ainda é aquele Anjo...
Porque a tiraste de mim?
Porquê???
Vai ficar bem???
Vão amá-la como eu amo???

Mas, dos Céus, não houve resposta.
A vida seguiria o seu curso, como sempre...

Via como Ela bebia o seu sangue e como isso a deixava calma.
Ela, não dera conta...
Não conseguia conter as lágrimas.
As assas dela estavam a desintegrar-se.
Meu Anjo... – sussurrou

Nessa noite,
uma Raposa morreu...
e um Anjo...também...