Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fox-Time

Fox-Time

Para Sempre

16.03.20

tu e eu.jpg

Uma pequena escapadela, uma oportunidade para se verem, um momento para se amarem.
O risco era grande, as consequências atrozes, mas a cumplicidade e o prazer... isso era inigualável. 

Olhou-a com um misto de felicidade e medo -“Por favor. Vai-te embora daqui! “

“Mas eu...quero estar contigo...a última vez…”

“Sabes que se te apanharem aqui...por favor...não quero ser o responsável por isso também...e...”

Interrompeu-o - “Acredita, se puder sentir os últimos raios de sol contigo, valerá a pena, sempre foi assim...tu sabes...porque havia de ser diferente agora ?" - concluiu ela, abrindo de seguida a sua cela e usando a chave furtada para soltar a pesada corrente da coleira de aço -"Vamos, segue-me.”

Saíram em direcção ao bosque que se situava junto à pequena aldeia.
A povoação não possuía muito mais que trezentas habitações, um pequeno mercado e uma igreja...mas...tinha uma prisão.
As suas tonalidades não fugiam ao castanho, podendo observar-se aqui e ali certos fragmentos de cor que, por isso mesmo ou apesar disso,
nessa noite, atribuíam uma certa beleza ao local, pelo menos, foi o que ele achou.

“Para onde vamos?”

“Para o paraíso!” disse-lhe, soltando uma gargalhada bem audivel.

Guiada pelo coração, conduzia o pequeno todo-o-terreno por entre as árvores sem prestar grande atenção ao caminho,
pois o seu olhar percorria aquele que ia a seu lado.
Desviava o seu cabelo longo para trás da orelha e olhava-o por diversas vezes, certificando-se de que ele estava mesmo ali...ao seu lado.
Esporadicamente apanhava o seu olhar, os olhos escuros pareciam-lhe mais claros, brilhantes,
quentes, era aquela mistura de cor e sentimento contido neles que ela associava à beleza única dele. 

“Chegámos!” anunciou, ao pararem à margem de uma clareira.

“Mas isto… meu Deus!…”

Perdera as palavras no exacto momento que olhara o local que os rodeava.
Nunca imaginara que no meio de tão denso bosque pudesse haver tal clareira.
O mais impressionante era a cascata no extremo norte que suavemente e sem grande ruído, alimentava o lago de águas calmas e refrescantes que transmitiam uma tal sensação de serenidade e bem-estar que, por momentos, ele quase esqueceu a situação.
A luz do luar que incidia no lago reflectia-se por todo o local, tornando-o ainda mais belo, pois as mais delicadas flores possuíam um brilho único, vivo e lindo.

“Como descobriste este lugar miúda?”

“Nunca tinha estado aqui antes. Foi na noite que te levaram. Vim sem destino.
Acho que foi instinto ou…ou fui guiada...” 

Olhou-a com mais atenção.
Mesmo não sendo uma garota, era uma mulher ainda jovem com toda a vida pela frente.
Apesar disso, demonstrava ter mais maturidade que certas mulheres de idade superior. Isso tinha-o cativado.
Aquele misto de menina-mulher, gentileza e rebeldia, força e fragilidade.
Era, de facto, muito bonita.
A sua face continha feições adultas e infantis, o que lhe conferia uma beleza fora do comum.
Naquela noite, os cabelos desciam delicadamente pelas suas costas, ondulando ao sabor da brisa que soprava suavemente.
Duas madeixas caíam-lhe no rosto emoldurando, assim, os seus olhos feitos berlindes.
Sempre tivera naquela cor viva um brilho de alegria e inteligência e em todas as viagens que ele fizera durante anos,
até chegar aquele lugar, nunca vira tal cor.

Aquele lugar. Porquê, naquele lugar? - reflectiu.

“Sabes, nunca pensei viver uma situação destas, mas, eu sabia que era proibido. A Lei é clara.
Quero que saibas que não me arrependo de nada.
Contigo, vivi. Não te esqueças. Não te culpes. Promete.”
Olhou-a intensamente.

“E tudo...somente... por me amares? Já viste? Nunca vou entender...” - questionava-lhe, olhos já húmidos.

"Simples humanos não conseguem compreender. Que importa isso ? 
Nós sabemos que a verdadeira proibição não existe...é nos imposta." - disse-lhe, ao estende um abraço que a enovloveu com ternura.

"Eu...eu prometo. Prometo sim, meu amor..."

Foi com o embalo de tão belas palavras que ela se entregou, levando-o para mais perto do lago, que para sempre
iria guardar aquele momento de sincero amor.
Amaram-se como provavelmente ninguém havia feito naquela vila, quem sabe até, no mundo!
Aquele era o amor no seu todo, o amor que apenas existia numa realidade inteligível e que não era maisdo que uma mera
reflexão da verdade que ambos reconheciam dentro de si. Haviam atingido, ainda que inconscientemente, o amor absoluto.
A Natureza, como que sensibilizada com tal paixão, proporcionou-lhes o mais belo momento das suas vidas,
disponibilizando até os seus pirilampos para os iluminar com uma luz ténue e doce e rodeando-os numa dança frenética de alegria.

“Quero...ser tua...para todo o sempre” - sussurrou-lhe.

“E serás. Acredita. Moras dentro de mim.” 

Na manhã seguinte chegou o doloroso momento.
Obrigaram-na a assistir ao acto, tão cruel. De propósito.
Ele subira vagarosamente os degraus para o estrado, sem demonstrou qualquer medo ou infelicidade.
Pelo contrário, do seu rosto irradiava...uma estranha felicidade.
Grosseiramente, o carrasco colocou-lhe a corda à volta do pescoço e posicionou-o por cima do alçapão.
Durante todo o tempo, ela nunca perdeu o contacto com os seus olhos e mesmo não podendo comunicar, eles...tocavam-se.

O alçapão fora aberto.
Aí, por destino ou não, ele sofreu e atingiu lentamente a morte.
No entanto, para a consternação da folia presente, nunca deixou de a fixar,
deixando bem claro que a levava com ele...para sempre.

“Amo-te” foram as últimas palavras dele, deixando pender a sua cabeça ao findar do último suspiro,
enquanto mantinha a mesma expressão de felicidade.

“Também te amo...” respondeu-lhe num murmúrio, deixando as lágrimas correm, livremente.

Aquelas foram de facto, as últimas lágrimas que mais alguma vez soltou.
Isto é, tirando naquela tarde, quase 3 anos depois.
Mas, aí já estava longe...longe daquele lugar...longe da familia escolhida...longe daquela gente!
Longe daqueles que pouco tempo de depois, inesperadamente, também encontraram a morte.
Nesse dia ao receber a carta codificada, chorou de alegria.
Estava concluido, o que havia planeado, desejado, e pelo qual vivera todos aquelas meses.
Também ela, não estava arrependida. Nem que viesse a sofrer as consequências...
Dirigiu-se até à janela.
A manhã estava bonita.
Sentia-se quente por dentro.
Jamais esqueceria aquela noite e mesmo já em idade avançada, relembrava com saudade uma paixão que ficou marcada
para sempre, no seu coração, na sua alma.
Em todo o tempo restante da sua vida, não voltaria a amar alguém com tanta intensidade.

Um dia, a morte haveria de chegar.
Estariam, de novo, juntos.
Para sempre.