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Fox-Time

Life isn't about how many breaths you take - It's about the moments that take you breath away!

Fox-Time

Life isn't about how many breaths you take - It's about the moments that take you breath away!

Encantadora de Palavras

22.01.20

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Temia,
que uma dia, se acabem as palavras bonitas.

As suas palavras bonitas.

Porque,
as levaram dele.

Fora um golpe inesperado e subtil.
Tanto que ele, naquela altura, nem percebera a verdadeira dimensão daquilo que estava a acontecer.

Na verdade, depois de refletir, via que acontecera aos bocadinhos.
Nas pequenas conversas e olhares desviados, cheios de significado quase imperceptível que o faziam
ficar sem resposta e com o coração a saltar um compasso.

Tão típico dela.
A sua capacidade para obliterar.

Sim,
achava que ela era uma encantadora de palavras e que as hipnotizavam com a melodia da sua voz.
Fazia-as balançar nas variações do seu timbre de mulher sedutora,
como se fossem pequenos espasmos nos seus corpos minúsculos em direcção ao ouvinte do apaixonado.

O sua caixinha mágica estava cheio delas e usava-as a seu belo prazer,
mesmo sendo que, nem todas eram dela, algumas, só as reproduzia.

E que bem que o fazia!

Ao saírem daquela boca linda, de mulher sensual,...elas saiam com perspicácia e intento,
com a arte do mestre e a sua lâmina afiada, dissecando sushi pronto para comer, pronto para degustar.
Agora, era como se ele fosse meros restos frios que sobravam da iguaria que ela tanto quis provar,
receita de que se tinha apoderado, que degustará até deixar de ser novidade, até perder o gosto exótico de outros tempos.
Uma maravilha.
Arte.


Hoje, beberia o seu copo de vinho tinto com a sabedoria que encontrará nele,
espalharia o queijo da serra no pãozinho que ele, a brincar, tinha levado à sua boca.
Noutra vida.


Soube,
que tinha regressado à terra que a mal tratara.

Onde num dia, na sua vida de moça fustigada pela infância madrasta e adolescência conturbada, ele aparecera.
Completou-a e fortaleceu-a.
Amparou a sua busca pela maturidade e fez dele as suas angustias, dificuldades e medos.
Sucumbiu aos gestos elegantes, sensuais, ousados e tímidos.
Entregou-se às noites de paixão, textos cheios de palavras profundas, secretas...eternas...
Preencheu a sua intimidade com amor e dedicação para além do que ela conhecia.
Fê-la dar-se como nunca se tinha dado a nenhum homem,

Mas,
também, se deu sem limites, sem tabus.
Foi dela, para o que ela quisesse.
Dela, para se satisfazer como fantasiava.


Convenceu-o da sua eterna fidelidade, companhia.
Fez dele o futuro pai de um filho.

Mas,
por estes dias, as palavras bonitas,
essas,
fugiam dele!
A galope!

Iria conseguir?
Seria, assim tão fácil?
Conseguiria olhar o Castelo...e não o ver?
E...naquela varanda...onde tantas as noites o tinha esperado...
onde o seu coração dava pulos por antecipação...
enquanto ela corria a toda a velocidade para a ver...
seria fácil de estar ?

Em que pensaria...quando estivesse sozinha...
...ali...à espreita...em torno dela?
Daria, para olhar os vales e montes...sem sentir a presença dele?
...olhar a lua?
...escutar os grilos da meia-noite?


Como gostaria de ouvi-la cantar palavras de outrora, ao vento, chamando por ele, para o levar de volta até ela...
Lembrava-se tão bem como ficava a vê-la vagueando pela praia,
e ao deitar-se na toalha...ser perceptíivel que pensava nele.

Agora,
queria apagar as palavras e os gestos.
As alegrias, as tristezas...as loucuras...

Apagá-lo.

Aquela menina, esquecera por completo a paixão louca sentida...por ele?
Aquela miúda, não via como podiam ter sido felizes para sempre?
Aquela mulher, não percebera como ele era o homem que iria adora-la para sempre?
Tudo, mas tudo que vivera, deixará de ter qualquer significado, para ela.
Palavras? Promessas?
"Amar NÃO Basta!"
Sabia, antes sabia!
Mas...não se escutará a si mesmo!...
Estúpido! Sonhador patético!
Livrara-se da sua armadura!
Para quê???
Para absolutamente - NADA!
Em breve,
teria,
uma folha em branco.

E,
não saberia o que escrever.

Tinham-se acabado.
As palavras bonitas.
Porque a maior parte, consentiram...deixaram-se roubar, dele!

E,
também elas,
não queriam escutar o seu choro,

nem acalentar as horas de desespero.

Não.

Também iriam abandoná-lo por completo.
Porque, tal como ele,
tinham-se deixado encantar,
por ela!