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Fox-Time

If only...we understood Love...

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A Tempestade ( Parte 1 )

23.11.19


A tempestade tinha-se intensificado rapidamente e a visibilidade era mínima.

Pela terceira vez, disse que ia parar, mas ela insistiu que continuassem,
argumentando que se quisessem dormir no carro, então,
deveriam ter ficado onde estavam.
Achou-lhe graça, sobretudo à forma como ela franzia a testa e abria os olhos
para fazer jus ao seu intento, e era verdade que àquela hora a estrada estava completamente deserta, o que lhe retirava grande parte do perigo...pensou.
Havia apenas a estrada, a chuva, e a escuridão.

E de repente...!
...uma jovem num vestido branco!
...ajoelhada no alcatrão!
...cabelo comprido!
...Depois!!
...braços estendidos à frente!
...uma expressão apavorada no rosto..!
...exactamente ali!
...em frente !!

Pisou com toda a força no travão enquanto virava o volante desesperadamente...!
...um ensurdecedor trovão abafou o grito que ele não conseguiu distinguir...
...nem tão pouco sabia se tinha conseguido desviar-se...
...a sua manobra tinha colocado o carro fora da estrada...
...a deslizar perigosamente na lama...
...como se uma mão invisível o estivesse a empurrar naquela rota fatal...

Reconheceu o grito que se seguiu.
Deu conta do seu próprio grito.
Então...tão rápido como tinha começado,
...aquilo acabou...
...abruptamente...
...com um tremendo impacto !

Estava escuro.
Mais escuro que antes.
Não havia qualquer luz.
A chuva fustigava o seu rosto através do pára-brisas quebrado.
À sua direita, um braço ensanguentado, imóvel, projectava-se
do meio de um monte de metal retorcido.

Gritou por ela !
Freneticamente, procurou por sinais de vida.
Nada!
Segurou-lhe na mão...
Queria gritar...pedir ajuda...fazê-la acordar...sair daquele pesadelo ..!
O céu, iluminado de riscos descontrolados, delineou a sombra assassina.
Estava ali, diante dele, imponente, impiedoso.
Durante um longo minuto, fixou o olhar inflamado no carvalho imóvel.

Os relâmpagos cortavam a noite novamente e ele conseguiu vislumbrar
uma velha casa de madeira à distância, não muito longe, e com alguma certeza...
alguém a correr por entre as árvores...
O próximo relâmpago não tardou e por um breve momentos, viu-a de novo...
Era ela!
Era a rapariga que tinha atropelado ! Atropelado ?? Como...?

Com ira crescente, arrancou o cinto de segurança, forçou a abertura
da porta e com algum esforço, rastejou para fora da viatura acidentada.
Ergue-se e sem perceber começou a andar na direcção da casa.

Novo relâmpago.

Sim! Tinha a certeza! Era ela!
Dessa vez, pareceu-lhe que tinha olhado para trás e que o tinha visto...
mas rapidamente esgueirou-se pelos enormes portões da velha casa,
subiu uns quantos degraus e desapareceu...

Seguiu-a...instintivamente...pensamentos confusos a percorrem-lhe
a mente enquanto avançava pela mata...ódio...alívio...estupfacção...
Poderia realmente culpá-la pelo acidente?
Provavelmente estaria tão perturbada quanto ele...e apesar de tudo,
...estava viva...

Numa corrida cambaleante, passou entre os portões balouçantes e
alcançou os degraus da entrada, onde, sem saber exactamente porquê,
deteve-se, hesitando.
Algo lhe dizia para correr de volta para carro...estava prestes a fazê-lo
... mas… e..?
Tinha de encontrá-la...tinha que falar com ela!

Girou a maçaneta ferrugenta.
Com uma surpreendente leveza,a pesada porta abriu-se.
A inquietante sensação cresceu.
Dobrou-se ,ajoelhando-se.
Não conseguiu evitar os vómitos que tomavam conta de si.
Reparou que sangrava abundantemente do joelho.

Subitamente, a frequência dos relâmpagos aumentou e
uma luz intensamente sombreada, de clareza sobrenatural,
iluminou a grande sala de estar.

A rapariga do vestido branco estava lá, sentada sobre
um enorme lençol branco que deixava adivinhar o sofá que cobria.
Escondia o rosto entre as mãos...mas...pareceu-lhe...que sorria...