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Fox-Time

Fox-Time

Reencontro Fatal

12.10.19


Sentia-se trémulo e esgotado.

Mal conseguia acreditar.

Após tanto tempo, ela estava ali, imóvel, como uma imagem barroca que não conseguimos traduzir num só olhar,
mas apenas admirar, naquele momento, pela beleza que vemos.

Afagava os cabelos na tentativa de acalmar a respiração, mas, ao encostar a mão nela,
logo se repreendia pois não conseguia manter-se inalterado.

Esfregava as mãos levemente nas dela e sorria, como uma criança que ganhara aquele brinquedo tão ansiado.

Então, entretém-se a contornar partes do corpo com as mãos, desejando poder possui-la outra vez,
ao mesmo tempo que as lágrimas lhe escorrem pelos olhos.

Era madrugada alta.

Havia o barulho de carros indo e vindo, a prazos não contabilizados, um cão desesperado que gania,
dando lugar a um uivar que lhe percorria a espinha provocando calafrios, e sobretudo,
o barulho ensurdecedor de gotas grossas de chuva no telhado.

Não receava que isso viesse a interromper o descanso daquela mulher e quebrar, como um cristal que se partiria em mil pedaços,
o encanto daquele momento, que por seu desejo se tornaria eterno.

Ah, como era deliciosamente santa e profana a sua presença naquele quarto pobremente mobilado.
Ainda conseguia ouvir os risos ecoando pelas dependências da casa, passos macios arranhando os azulejos,
corpos famintos roçando

entre lençóis cheirosos e engomados.

Reinava o mais absoluto silêncio, mas no seu íntimo, haviam vozes, muitas vozes,
e tantas vozes criavam uma espécie de mistura de alegria e tristeza.

Alegria porque ela, agora, pertencia-lhe, e tristeza, pois ela partira.

Sentou-se à beirinha da cama e contemplou-a mais uma vez.
Que cenário magnifico, e como era engraçado as cores, como que uma espécie de mar, um véu da natureza,
que a cobria, que invadia todo o espaço, que tornava o quadro perfeito e harmonioso, quase como que premeditado.

Reflectiu sobre esse ultimo pensamento.

Não, não tinha desejado isso.
Não tinha acontecido assim.
Tinha visto a alegria nos olhos dela, o riso aberto e meigo quando o viu à porta, ramo de rosas multicolores numa mão,
chapéu-de-chuva na outra, e um “boa tarde miúda” meio engasgado pronunciado entre beijos e abraços repentinos.

Fora como ele tinha imaginado, como tinha projectado o dia de a reencontrar, como tantas vezes tinha sonhado!

Depois, as palavras prisioneiras de anos desataram a correr pelo ar, as confissões fizeram-se ouvir,
os perdões deram lugar ao amor e sem se aperceber, quando acordou ao lado dela, a tarde já dava lugar à noite tempestuosa.


Porquê falar-lhe do amanhã? Porquê?
Porquê estragar toda a envolvência de um momento tão especial?
Porquê pressioná-la como o já o fizera noutros tempos? Porquê?

Levantou-se pesadamente e dirigiu-se à kitchenete.
Trouxe de volta um pano húmido e agachou-se para proceder à limpeza cuidadosa do parquete.
O vermelho vivo devolvia-lhe com toda a clareza aqueles instantes fatais, o salto repentino dela no meio de um grito de discórdia,
numa tentativa de abandonar a cama quente que partilhavam, a frase “vou mas é tomar um duche, tu estás doido!”,
...e...o trambolhão no chão húmido...

Ajoelhou-se, e colocou o queixo em cima do colchão a escassos centímetros do dela.
A palavra destino encheu-o de raiva.
Se assim era, quem poderia ele culpar, questionar, magoar...odiar??

Teve medo da resposta.
Levantou-se e debruçando-se sobre ela, tapou-a.
Seguidamente foi lavar as mãos.

Fechou a porta do prédio atrás de si, pôs as mãos nos bolsos e saiu de encontro à tempestade
que tomava conta da noite fria e escura que o aguardava.


Em poucos instantes o céu molhava-lhe o rosto, cabelos e corpo, sentia-se extasiado!

E agora?
Que rumo?
Destino.
Pensou.
Queria vingança.
Queria vingança de quem a magoará e perseguira todos aqueles anos,
de quem não consegui viver sem ela,
de quem a tirara dele para sempre!!

Sorriu e iniciou a sua caminhada pela encosta abaixo.
Não tardaria mais do que dez minutos até chegar ao posto policial.
Uma vez lá, diria a todos,
que fora ele,

O culpado !

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