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Fox-Time

If only...we understood Love...

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If only...we understood Love...

a Miúda do autocarro

02.01.19


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Quando ali chegou, por volta das sete e meia da tarde, o calor era sufocante.
O ar pairava imóvel no céu e o vento, visitante provocador, trazia os aromas agridoce de vinhas à beira-mar.
Que belo dia para voltar às paragens de autocarro após décadas de cómoda ausência !


Afinal o indicador de temperatura nos automóveis sempre serviam para algo, pena era ele não lhe ter dado a
devida importância.

Uma coisa era certa, não iria ficar naquela fila medonha, a derreter.
Sem perder tempo, atravessou o pequeno jardim que se encontrava atrás e ocupou o banco de madeira,
ou o que restava dele, debaixo de uma enorme palmeira.


Não demorou muito – até que reparou em quem se aproximava.
Teria sido impossível não reparar.
Era esbelta, mas não no sentido esquelético, como tantas mulheres reféns de imagens propagadas por
deusas de mundos elitistas.

Cabelo loiro, quase liso, o vestuário simples, justo, elegante.
Usava óculos de sol pretos com rasgos de vermelho, grandes, que lhe escondiam os olhos.
Os sapatos vermelhos enquadravam-me na perfeição com as pernas bem torneadas sem pôr em causa
uma delicadeza discreta que emanava da figura dela.


Acabou por ser o último a entrar no autocarro.
Podia ter permanecido em pé mas a curiosidade convidou-o a sentar-se em frente a ela, naquele que
alguns chamam de assente do enjoo dado que o passageiro viaja de costas para o sentido da marcha.

É claro que tentou fazer de contas que não olhava e é claro que ela percebeu e daí o sorriso contido
mas divertido que os cantos da boca dela denunciavam.

No seu colo, de forma descontraída, segurava a mala de mão que trazia consigo.

De repente, acontece uma travagem brusca.
De repente, ela está a ajudá-lo a reunir os papéis espalhados no chão.
De repente, os óculos dela caem-lhe e é ele a apanha-los antes de embaterem no pavimento.

“ Tome ... o fecho dessa mala não deve estar grande coisa...” diz-lhe, no meio de uma gargalhada.

“ É...parece que tem razão...olhe...fazemos uma troca...os meus papeis pelos seus óculos”

Sou mesmo idiota..., pensou.

Mas, para seu alivio, ela sorria.

“Está bem...”

No entanto, devolve-lhe toda a papelada, excepto uma folha que evidenciava um texto.

“Escreve ?”

“Só coisas sem importância...para passar o tempo...não quer os seus óculos ?”

“Ummm...não sei...”

Olhava-a estupefacto.

“Não...acho que não...Fazemos a troca amanhã...”

“Não sei se dá...amanhã já devo ter o meu carro...não costumo apanhar...”

“Eu sei...uma carrinha preta...deixa-a no lugar dos CTT enquanto vai tomar o café de manhã...”

E com isto levantou-se, tocou a campainha to Stop e dirigiu-se à saída.

Ele permanecia imóvel.
Levantou-se para questionar.

“Como é que ...”

Mas ela já tinha escapado pelas portas basculantes automáticas do autocarro.
Sentou-se.
Que diabo !

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Sete e cinco.
Encontrava-se sentado no mesmo banco.
Ansioso.

Estás parvo ou quê?
Calma...foi só um acaso...

Os olhos dele percorriam a avenida.

Será que vinha?
E era bom que viesse?
Aquela miúda...aquela mulher...?
Pertencia a outro mundo, a outra realidade que não a dele.
Contudo, tinha-lhe falado com tanta intensidade, à vontade,
como se secretamente tivesse aguardado por aquele encontrou.

Naaaa...Impossível!
Estas coisas não acontecem!
Dei demasiada importância.
É melhor ir embora.

Levantou-se e começou a caminhar para o carro estacionado em frente ao jardim.
Instalou-se no assento aveludado e suspirou.
Apertou com mais força os óculos que segurava.
Sorriu.

Que raio! Porque me deixou ficar com os óculos?

Olhou-os.
Numa das hastes havia uma inscrição, ou melhor, o inicio de uma palavra, de um nome...
Eram um bocadinho dela...
rra! Que se foda!
Ao bater com a porta do carro sentia-se revigorado e feliz.
O banco raquítico do jardim que o aguardava sussurrava-lhe - “ Boa! Bora lá homem!”

Decidira esperar.




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