Não Acredito Nisto!
22.01.19

Voltou-se.
Aninhou a bochecha esquerda na fofa almofada enquanto deslizava uma perna por fora e para cima do lençol branco.
Tentou ocupar os pensamentos com o som vindo da aparelhagem embutida na cabeceira,
de onde You and Me dos Lifehouse emanava baixinho.
Sorriu.
As palavras da canção pareciam lhe escritas de propósito.
Não adiantava.
O barulho de água a correr era mais forte fazendo com que ela se virasse para o outro lado,
ficando a olhar a porta semi-aberta,
escutando a chuva tão familiar ao interior de uma casa de banho.
Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez.
A desilusão de um quase.
Era o "quase" que a incomodava, que a entristecia, que a matava, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou e ainda joga, quem quase morreu mas está vivo, quem quase amou mas não amou.
Bastava pensar nas oportunidades que escapam pelos dedos, nas que se perdem por medo.
Perguntava-se, às vezes, o que levava tantas pessoas a escolherem uma vida morna..!
A resposta, sabia de cor, estava estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobrava cobardia e faltava coragem, até para se ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses seriam bons motivos para decidirmos entre a alegria e a dor, provavelmente até sentir nada,
mas não eram.
Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
O barulho da água cessou.
De repente e como já era habitual, um calor subido e arrebatador apoderou-se dela.
Porque lhe acontecia sempre aquilo?
Sim, hoje até que podia inventar uma desculpa, dizer que estava num quarto estranho de seios ao léu,
em parte enrolada num lençol desconhecido que apenas escondia a cuequinha preta rendada
que comprara especialmente para a ocasião e que ele estava já ali...ali...
murmurando a canção que ela tão bem conhecia...
"És muito gira miúda!"
Esboçou mais um sorriso. Ele dizia-lhe isso...
Aquela sensação boa acontecia mesmo ao telemóvel.
Simplesmente...acontecia!
Engraçado...à quanto tempo não dava pelo cheiro de um gel de banho para homem?
Era demasiado tarde para considerações...
Estava mesmo ali, deitada, estupidamente nervosa, à espera...
Para os erros há perdão.
Para os fracassos, uma segunda oportunidade.
E...para os amores impossíveis? Há Tempo...??
De nada ia adiantar manter a cerca que aprisionava um coração magoado e carente
ou enveredar por um plano sábio de como economizar nos sentimentos para poupar a alma.
Não! gritou para dentro de si, se fosse o caso, não ia deixar que a saudade a sufocasse
e que a rotina se acomodasse...e muito menos que o medo a impedisse de tentar.
Susteve as lágrimas que teimavam em querer escapar.
Lembrou-se de uma passagem que tinha lido, fazia tempo, algures num livro, agora sem título e sem autor;
- Gasta mais horas a agir do que a sonhar, a fazer do que a planear, a viver do que a esperar,
porque;
embora quem quase morreu, esteja vivo, quem quase vive já morreu! -
Sentiu a porta abrir.
O cheiro dele envolve-a e quando olha...encontro o seu olhar.
Era firme, penetrante, carinhoso.
Olhou-o, intensamente.
Deixou-se sentir.
Era bom.
Deu conta que estava molhada.
Um ligeiro aperto de peito fazia-a respirar curtinho.
O calor repentino no seu botãozinho denunciava uma excitação crescente.
Fazia tempo que não era assim, daquele jeito, tão natural.
“Agora...minha Princesa...” - diz-lhe baixinho, sorrindo - “agora o tempo vai parar...just You and Me...”
Olhava-o a retirar a toalha de banho que trazia à cintura e a luz tênue não escondendo o desejo dele
faz-a soltar um gargalhada marota...
Arqueou o pescoço para trás, fechou os olhos...lábios entre-abertos...à espera do toque dele.
Não acredito nisto!